Tem dias em que eu percebo que não estou sofrendo apenas pelo que aconteceu, mas pelo que a minha mente fez com aquilo depois.
A vida aparece simples. Uma mensagem que não veio. Uma resposta diferente. Um silêncio. Uma presença que muda de temperatura. Um olhar que não entrega o que eu esperava.
E, de repente, aquilo que era só um acontecimento vira julgamento, abandono, desrespeito, ameaça, lembrança antiga, medo novo.
A realidade passa por mim uma vez, mas a minha mente repete mil.
Talvez o mundo nunca tenha sido tão pessoal quanto eu senti. Talvez muita coisa só estivesse acontecendo. Uma árvore sendo árvore. Um oceano sendo oceano. Uma pessoa sendo ela mesma, com seus limites, suas fugas, seus conflitos, suas incapacidades.
E eu, tentando fazer tudo caber dentro da minha história. Tentando entender se era sobre mim. Tentando descobrir onde fui insuficiente, onde errei, onde deixei de ser visto, onde comecei a doer.
Mas nem tudo que me toca está me atacando.
Às vezes, o que machuca não é o momento em si. É o que ele desperta em mim. É o arquivo antigo que abre sem pedir licença. É o padrão que volta. É a ferida querendo provar que sempre teve razão. É a mente tentando transformar o presente em continuação do passado.
E eu cansei de viver preso nessa tradução.
Porque a vida não precisa se ajustar às minhas expectativas para ter beleza. O oceano não deixa de ser imenso porque eu queria ver uma baleia. O céu não deixa de ser céu porque eu esperava outro tom de azul. Uma pessoa não deixa de existir com suas próprias confusões só porque eu desejei clareza.
E talvez maturidade seja justamente parar de exigir que tudo confirme ou cure alguma coisa dentro de mim.
Eu não quero mais olhar para o mundo como um teste de Rorschach emocional, projetando nos outros tudo que ainda não consegui organizar em mim. Não quero transformar cada silêncio em sentença, cada ausência em prova, cada distância em condenação.
Também não quero negar o que sinto, porque o que sinto existe. Mas existe em mim. Passa por mim. Não precisa virar prisão.
A consciência tem força. Eu sei disso agora. Tudo em que eu coloco foco cresce, fica, ganha corpo, ganha voz. Se eu seguro a cascavel, ela continua me assustando mesmo depois de ter ido embora. Se eu seguro a borboleta, ela deixa de ser beleza e vira saudade presa.
Apego e resistência são formas diferentes de não deixar a vida passar.
E talvez eu tenha vivido muito tempo assim: tentando reter o que amei e expulsar o que me feriu. Mas nada disso me deixou livre.
Então hoje eu tento voltar ao simples. Ao que está diante de mim. Ao que é, antes da minha mente começar a vestir tudo com medo.
Tento lembrar que eu sou quem observa, não apenas o que acontece. Que existe em mim algo mais profundo do que a reação, mais antigo do que a carência, mais verdadeiro do que a ansiedade.
Algo que estava aqui quando eu era criança, que continuou aqui enquanto meu corpo mudava, enquanto minhas ideias mudavam, enquanto meus amores mudavam, enquanto minhas certezas caíram.
Quem vê quando eu vejo? Quem sente quando eu sinto? Quem sou eu antes da história que conto sobre mim?
Talvez a resposta não venha em forma de explicação. Talvez venha em forma de presença. De silêncio bom. De não precisar transformar tudo em guerra.
De olhar para uma árvore e conseguir ver apenas árvore. De olhar para alguém e conseguir ver apenas alguém. De olhar para mim e não ver apenas ferida, excesso, intensidade ou falta.
Ver vida. Só vida.
E, por um instante, não precisar tomar tudo como pessoal.
Porque talvez liberdade seja isso: permitir que o mundo exista sem virar extensão da minha dor. Permitir que o momento passe por mim sem eu tentar prenderé-lo, vencê-lo ou me defender dele. Permitir que eu sinta, mas não me torne refém do que sinto.
A espiritualidade, talvez, não esteja em fugir da realidade. Talvez esteja em parar de brigar com ela.
E, finalmente, aprender a estar aqui.
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