Tem músicas que funcionam como máquina do tempo.
Você ouve o primeiro acorde e pá! — já não está mais aqui. Foi jogado de volta pro quarto da adolescência, pro banco de trás de um carro antigo, pra varanda onde alguém te olhou de um jeito que ninguém mais olhou.
A música acende memória como fósforo em coração úmido. Faz brotar cena. Faz cheirar perfume que não tá ali. Faz doer saudade que você nem sabia que ainda morava no peito.
E o mais louco? Às vezes não é uma música especial. Às vezes é uma faixa qualquer, que tocava no fundo de algum momento esquecível — mas ela ficou. Ficou grudada na tua história, feito etiqueta mal tirada em copo de vidro.
E você percebe: as músicas sabem mais de você do que você mesmo. Sabem os caminhos do seu sentir. Sabem onde te desmontar, e onde te reconstruir.
Tem música que te lembra quem você foi. Mas tem outras… que te lembram quem você queria ser. Aquelas que te davam coragem, que te faziam sonhar, que te pintavam inteiro quando o mundo tentava te apagar.
Você já reparou como a gente se veste de música às vezes? Coloca um som no fone e se transforma. Anda diferente. Olha diferente. Sente diferente. Porque ali, naquele som, mora uma versão tua que você respeita.
E quando tudo parece perdido — você volta a ela. Aquela música. Aquela faixa que, de algum jeito, tem tua digital.
Porque você não ouve ela. Você é ela.
E ali, no meio do refrão, no ápice da batida, no solo que corta o céu da tua mente… você se lembra. Você ainda está aqui. Mesmo quebrado, mesmo diferente, mesmo com cicatrizes — você ainda pulsa. Você ainda dança. Você ainda é.
— Gusmorelife
Este texto faz parte de Entre Acordes e Abismos: O Livro-Sonho — Seção 3: Silêncios Que Gritam.
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