Escrevo porque algumas coisas não cabem no silêncio.
Não escrevo para enfeitar sentimentos, nem para transformar dor em espetáculo. Escrevo para tentar organizar aquilo que, muitas vezes, chega sem forma. Uma sensação, uma ausência, uma pergunta que ficou no peito, um incômodo com o mundo, uma lembrança que insiste em voltar, uma presença que marcou mais do que parecia no momento.
Meus textos nascem desse lugar entre o sentir e o entender.
Existe em mim uma vontade de traduzir o que muita gente sente, mas nem sempre consegue dizer. A falta de resposta. A pressa das relações. O egoísmo disfarçado de maturidade. O silêncio moderno. A dificuldade de se entregar sem se perder. A necessidade de presença em um mundo que parece cada vez mais distraído, descartável e conveniente.
Escrevo sobre amor, mas não apenas sobre o amor romântico.
Escrevo sobre o amor como tentativa de permanência. Como gesto. Como cuidado. Como presença. Como coragem de ficar um segundo a mais quando o mundo inteiro ensina a ir embora rápido demais. Também escrevo sobre a dor que nasce quando esse amor encontra orgulho, distância, medo, pouco caso ou falta de comunicação.
Para mim, escrever é uma forma de preservar.
Nem tudo que sinto precisa ser entregue de qualquer jeito. Nem toda dor precisa virar exposição. Nem toda saudade precisa implorar resposta. Existe um pudor bonito em guardar certas partes de si. Existe força em sentir profundamente e ainda assim escolher com consciência onde colocar esse sentimento.
Meus textos falam muito sobre isso.
Sobre o limite entre se permitir e se abandonar. Sobre desejar algo real sem transformar o outro em salvação. Sobre aprender que intensidade não precisa ser descontrole. Sobre entender que presença é, talvez, uma das formas mais raras de amor nos dias de hoje.
Também escrevo sobre o tempo.
Sobre a vida acontecendo enquanto tentamos controlar o resultado. Sobre a mania de achar que somos feitos apenas das conquistas, quando, na verdade, talvez sejamos muito mais moldados pela forma como atravessamos o caminho. Escrevo sobre processo, consciência, espera, recaída, cura, saudade, cansaço e recomeço.
Existe uma parte dos meus textos que conversa com música.
Algumas palavras nascem como se fossem acordes. Algumas memórias parecem ter trilha sonora. Às vezes escrevo como quem escuta uma canção por dentro, tentando transformar sensação em frase, silêncio em imagem, caos em ritmo. A música me ajuda a acessar lugares que a explicação comum não alcança.
Por isso, minha escrita costuma ter esse tom de sonho, confissão e abismo.
Gosto de escrever sobre o que é humano demais para ser simples. Sobre aquilo que a gente tenta esconder, mas que aparece no olhar, na ausência, no jeito de responder, no intervalo entre uma mensagem e outra. Me interessa o que fica depois do acontecimento. O eco. A interpretação. A pergunta que ninguém respondeu.
Não escrevo para parecer resolvido.
Escrevo justamente porque ainda estou tentando entender.
E talvez seja isso que torne tudo mais verdadeiro. Meus textos não fingem uma paz absoluta. Eles caminham entre maturidade e desejo, entre orgulho e vulnerabilidade, entre vontade de se proteger e vontade de viver algo que valha o risco. São textos de alguém que sente muito, mas que também está aprendendo a não se derramar em qualquer lugar.
No fundo, escrevo sobre presença.
A presença que falta. A presença que cura. A presença que assusta. A presença que alguém oferece quando escuta de verdade. A presença que a gente precisa aprender a ter consigo mesmo antes de esperar que alguém a ofereça.
Escrever, para mim, é isso.
É voltar para dentro sem desaparecer do mundo.
É transformar aquilo que me atravessa em algo que talvez também atravesse alguém.
É tentar dizer, com delicadeza e verdade, que ainda existe beleza em sentir, mesmo quando sentir pesa.
E, se meus textos encontrarem alguém no meio de um dia difícil, talvez cumpram o papel mais bonito que uma palavra pode ter.
Ficar.
Mesmo que por alguns segundos.
Mesmo que só o tempo suficiente para alguém se sentir menos sozinho.
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