Ela começa. Do nada. Um acorde, um suspiro no fone de ouvido, uma batida que te acerta feito pedrada no plexo solar. A música não precisa de convite. Ela entra, senta no meio da sala da sua mente, põe os pés em cima da mesa e acende um cigarro que nem você sabia que tinha deixado ali.
E a melodia? Essa sabe como te dobrar. Ela sabe onde mora sua saudade, sabe o endereço da sua esperança. Às vezes ela só passa, dá um aceno — tudo bem, tô aqui, lembra? — e segue. Outras vezes ela te leva pela mão e vocês saem correndo feito crianças em direção ao sol. E tem também aquelas vezes… em que ela te prende. Te encurrala entre um refrão e um silêncio. E te obriga a sentir.
Aí o corpo reage. Começa no pé — leve, quase imperceptível. Depois a perna balança. O pescoço cede. A cintura flutua. O arrepio sobe como se fosse aviso: vai ficar mais forte.
Já ficou.
E eu tô escrevendo isso agora como quem digita dançando. Porque meu peito vibra. Porque tem um violino que me lembra da morte da minha avó. Tem uma bateria que me lembra de momentos que não cabem em palavras. Tem uma voz que me lembra de alguém que ainda nem conheci.
Como isso é possível? Como é que o som vira memória que não aconteceu? Como é que uma música cria saudade de um momento que nunca existiu? Isso não é só arte. Isso é magia, alquimia, é ritual de acender vela na beira do abismo da consciência.
E quando entra aquela parte instrumental que parece céu abrindo? Não tem nome. Não tem explicação. Só fecha os olhos. Só respira. Só deixa acontecer.
A música não quer ser entendida. Ela quer dançar contigo no escuro da tua mente. Quer te deixar nu em camadas que só você sabe onde escondeu.
E quando acaba… o silêncio é quase insuportável. Porque você foi. E voltou. Mas deixou partes suas lá dentro. Presas no refrão. Presas na harmonia.
Agora você respira. Recomeça. Dá play de novo. Porque no fundo, a gente vive esperando essa próxima canção que vai nos lembrar quem realmente somos, mesmo que só por 3 minutos e 48 segundos.
— Gusmorelife
Este texto faz parte de Entre Acordes e Abismos: O Livro-Sonho — Seção 2: O Caos do Invisível.
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