Mas então me diz, como se segura o toque que não encosta? Como se traduz uma nota em lágrima? Ah, já entendi: não se traduz, se sente — e nem sempre se sente igual.

E se eu disser que agora mesmo estou flutuando num acorde suspenso, vendo a fumaça do sax subir como pensamento que a gente tenta agarrar mas escapa por entre os dedos como areia em sonho?

A música toca e de repente minha espinha ganha cordas, meu cérebro vira tambor, e o coração? Bom, o coração toca prato de ataque a cada lembrança que volta sem pedir licença. Que loucura é essa de ser humano e vibrar por sons que nem têm forma?

Yussef toca como se evocasse entidades, como se cada virada de bateria fosse um feitiço jogado na cara da realidade. E eu? Tô aqui, parado, olhos arregalados, como quem vê um trovão atravessar a sala em câmera lenta.

Como explicar? A música não se explica, se entrega. Talvez ela seja aquele amante que nunca fica, mas sempre marca. Talvez seja como vinho derramado em tapete branco — incômodo, belo, eterno.

Por que as lágrimas vêm com o solo de contrabaixo? Por que o pensamento vai longe quando o piano repete uma nota quase como um mantra? É alguma lembrança? Algum desejo? Algum fantasma antigo? Ou será que é só o corpo dizendo: “me escuta, porra!”

Ah, mas não me importa. Enquanto esse som estiver vibrando, estarei aqui, revirando a alma com palavras tortas, desenhando sinapses com pontas de frase. Porque escrever isso, amigo, é tocar sem instrumento. E eu estou no palco agora.

Então vem, senta nessa poltrona da sua mente e fecha os olhos. Deixa esse texto virar saxofone e te soprar pra longe.

— Gusmorelife


Este texto faz parte de Entre Acordes e Abismos: O Livro-Sonho — Seção 1: A Dança do Sentir.

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